Domingo, 5 de Julho de 2009

Claustro

E ele já tinha se decidido a virar monge. Tinha cortado os poucos fios de cabelo que restavam na parte de trás da cabeça, se convertido da vida de farras e paixões, se contentado com o claustro e com a contemplação e arrumado um hábito que servisse em seu corpo avantajado.

Na última semana, acordara antes do sol se levantar e ia dormir sempre antes das completas, a noite dos antigos religiosos, que começava assim que escurecia. Já estava quase adaptado ao fuso horário da oração.

Todos esses esforços, fazia para cumprir um desejo singelo. Buscava se libertar das paixões terrenas. Queria acabar com qualquer sentimento que o habitasse e, ao mesmo tempo, evitar que voltasse a se apaixonar por alguém. Encararia a castidade na marra, mas evitaria mais sofrimento.

Só faltava a última confissão antes de se tornar oficialmente um monge. E ele andava pela igreja, o sol a acompanhá-lo pelos vitrais, que representavam passagens bíblicas. Tudo em paz. Até que o futuro monge levantou o olhar do chão para não trombar com alguém que passava. Uma moça de estatura baixa, sorriso amigável e olhar encantador. Cheia de vida, que saía da igreja após meditar. Cruzaram-se os olhos e ele saiu correndo.

Como, diabos, é difícil se livrar deste mundo!!!!

Domingo, 28 de Junho de 2009

Ser Feliz

Se nem essa ilusão posso ter, o que me resta?

Sábado, 20 de Junho de 2009

Detalhe Importante - ou Devaneio Noturno

Acaba de ocorrer uma frase do grande Meneguetti: "A ignorância é o primeiro passo na conquista da cabeça".

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Diplomas

Este comentário, escrevi no blog do Evaldo Novelini, em um post sobre a decisão do Supremo em acabar com a necessidade do diploma em Jornalismo para o exercício de nossa profissão. Vale a pena ler o post de um dos jornalistas mais inteligentes que eu já conheci. Jornalista formado, diga-se de passagem.

Acho a decisão do STF uma aberração, que irá trazer prejuízos severos ao país e a quem nele vive. Passei o dia pensando em um texto para escrever aqui, mas este assunto sempre acaba me tirando o humor. Talvez até escreva mais sobre o tema, mas não agora. Fico com o comentário que fiz e que resume um pouco do que penso:

Se para garantir a liberdade de expressão é necessário que se derrube a necessidade da formação específica, para garantir a liberdade de ampla defesa jurídica isso também vale.

Para que um jornalista para escrever reportagens? (veja bem, estou falando de reportagens, não de artigos de opinião, que fique bem claro) Para que um advogado para fazer petições ou atuar em ações?

Sem a exigência absurda do diploma e sua reserva de mercado, eu poderia atuar como advogado e ser colega dos nobres ministros do Supremo no Jornalismo e no Direito.

Não seria um mundo maravilhoso?

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

O Melhor de Todos

Desde o final de semana, ando pensando se Federer é o melhor de todos os tempos ou não. Na verdade, esta é uma discussão muito mais profunda que só números, conquistas, prêmios e por aí vai... A questão acaba resvalando na própria visão de sua realidade ou do seu tempo.

A tendência do ser humano é valorizar o que aconteceu no passado, já que ficam gravados os momentos bons e “esquecidos” os maus, ao contrário do que acontece com quem ainda está na ativa, que acaba tendo os momentos negativos mais destacados.

Aí, você, leitor, me pergunta se eu acho o Federer o melhor ou não. Aí, eu acho que sim, apesar de a comparação entre atletas de tempos diferentes seja complicado. Federer tem adversários de peso, como Nadal. Sampras tinha Guga e Agassi, Mcenroe tinha Lendl e vice-versa. Sem contar Jimmy Connors, Mats Willander, Bjorn Borg e assim por diante. E neste caso, o atleta ter os melhores número e maiores conquistas faz uma sensível diferença.

É uma situação bem diferente da vivida por Schumacher na Fórmula 1. Ele tem as melhores estatísticas, mas não teve adversários fora de série no seu auge. Se muito, teve Fernando Alonso e mais perdeu que ganhou batalhas contra o espanhol. É diferente de Senna e Prost, por exemplo, os dois maiores para mim ao lado de Fangio. Schumacher é um grade nome da F-1, mas não o melhor.

Portanto, minha opinião: Federer, apesar de muitos grandes jogadores, é o melhor tenista de todos os tempos. Sua hegemonia e vitórias em todos os Grand Slams estão aí para provar.

Sábado, 6 de Junho de 2009

Pé na Cova

Lisboa, mês de setembro. Fim de verão, mas com um calor de fazer Vasco da Gama, de seu túmulo no Mosteiro dos Jerônimos, sentir saudades de suas viagens pela África em busca do novo caminho para as Índias. Neste cenário, saí do Mosteiro - depois de andar um tanto pela mais sensacional construção da capital portuguesa - em direção à margem do rio Tejo. Para isso, era só atravessar uma bela praça e uma enorme avenida, com linha de trem no meio e passagem subterrânea para pedestres.

No caminho, já ficavam claros os primeiros sintomas de desidratação, daqueles que constam em qualquer manual de sobrevivência e que começam com a boca extremamente seca. O caso estava até mais grave porque também tem aquela sensação horrível de se fantasiar de bica, de tanto suor que jorra de suas costas. A vontade era se enfiar na fonte que existia na praça ou então, mais eficiente, mergulhar no Tejo, bem em frente ao Monumento aos Descobridores. O problema da primeira opção era ir em cana. Da segunda, não voltar à superfície.

A terceira via salvadora apareceu do outro lado da praça, bem próximo à tal avenida. Um carrinho de vender sorvetes, que também oferecia garrafas de meio litro de água. E ainda por cima gelada. O euro pago nem pareceu tão caro naquela hora. Aliás, em situações assim, melhor nem tentar a conversão para real. É capaz de dar mais sede e você ter de comprar mais.

Só de segurar a garrafa, o calor parecia ter diminuído um punhado de graus. O primeiro gole foi instantâneo e levou quase metade do conteúdo. Tudo para refrescar. Só depois veio o susto, daqueles que quase fazem sua vida passar em frente dos seus olhos.

No rótulo azul, escrito com letras brancas, estava escrito: Água Mineral Penacova.

Sábado, 30 de Maio de 2009

Prazos e Números

Depois do sucesso do post abaixo, vou propor mais uma discussão sobre jornalismo aqui. Na verdade, mais uma discussão sobre dois pontos que andam me incomodando bastante no jornalismo feito de uns tempos para cá: os jornalistas reféns de prazos e aqueles que parecem matemáticos frustrados, tamanha a quantidade de números que querem colocar em seus textos.

Os reféns de prazo querem data para tudo, não importa se essa mensuração é possível ou não. Querem um exemplo? O governo anuncia a abertura de licitação para uma obra, qualquer que seja. Pelos trâmites burocráticos, não existe como prever com exatidão quando esta licitação terminará, já que temos prazos para apresentação de documentos, possibilidades de recursos, prazos para julgamento de recursos, enfim... Tudo o que a lei determina.

Pois bem, aí vem a notícia: "O governo abriu licitação para tal obra. Ainda não há um prazo para o começo das obras". Caramba, mas isso não é notícia. A notícia é a novidade, é o fato... Mas eles acabam se perdendo na "receita de bolo", que diz que tudo tem de ter um resultado prático e nem tudo é assim. Aliás, matérias "receita de bolo", aquelas que seguem sempre um mesmo formato, é o que menos andamos precisando nesses tempos.

Os matemáticos frustrados são aqueles que abusam dos números. Por exemplo, uma rua vai ser fechada para um serviço qualquer. Aí, chegam as perguntas: quantos carros passam por ela por dia? quantas pessoas passam caminhando? e quanto cachorros passam? qual é a extensão da rua? qual a profundidade do buraco?... Às vezes, no afã dos números, até esquecem de perguntar o óbvio: qual a rota de desvio?

Eu também já fiz matérias que abusavam dos números. Geralmente, elas saíam nos dias pós-jogos, aqueles em que o repórter esportivo muitas vezes não tem o que escrever a não ser o rescaldo das entrevistas da partida. Aí, eu me debruçava em listas de jogos e resultados para tirar alguma coisa. E até saía algo, algumas vezes bom, mas era um último recurso quando não tinha uma boa informação a dar, nem uma boa história para contar.

E eu acho que é isso que acontece com alguns desses repórteres reféns de prazo ou matemáticos frustrados. Muitos não tem a noção exata do que apurar ou do que contar. Aí, lançam mão de subterfúgios para tentar dar uma sustentação a um texto capenga.

Prazo é bom e deve estar na notícia quando faz parte da informação. Número também é importante, mas quando tem algo a dizer ao receptor da informação. Fora disso, são só palavras para completar o espaço no jornal, o tempo na rádio ou o fade (palavra que eu aprendi outro dia) na televisão.

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

A Morte da Apuração

Um estudante de jornalismo me mandou um e-mail querendo RECEBER informações sobre a história do Mercado Municipal. Nada de pesquisa, o negócio era receber mesmo. O e-mail me chegou nas primeiras horas da manhã e quem me conhece sabe o bom humor que tenho nesses momentos do dia. Mas, independentemente disso, sem saber, o garoto estava, mais uma vez, decretando a morte da apuração.

Afinal de contas, como (futuro) jornalista, ele deveria ir à campo, buscar a informação, não simplesmente mandar um e-mail para a assessoria de imprensa da Prefeitura (sem nem passar a mão no telefone para ver se a mensagem chegou) e pronto. Tinha de ir ao Arquivo Histórico e pesquisar documentos e livros. Tinha de ir ao Mercadão, conversar com comerciantes antigos, ouvir sua histórias... Ou seja, tinha de fazer o papel de coletar fatos e informações. Tinha de apurar.

Este comportamento de buscar tudo pela lei do menor esforço, sem se preocupar com um trabalho realmente jornalístico é algo cada vez mais comum em redações por aí afora. É a maldita mania de se fazer jornalismo pela internet ou pelo telefone. Entrevista? Só em último caso. Pessoalmente? Pior ainda... Chegou-se ao refinamento de copiar e colar a pauta do dia e mandar para o assessor descascar o abacaxi. Depois, é só colar e emendar as respostas no fim do dia. Fácil assim.

Existe outro tipo de "jornalismo" que prega o não comparecimento ao evento. Depois, é só ligar para alguém que esteve por lá e perguntar o que aconteceu. Nada de pluralismo, a versão oficial é suficiente. Não para o receptor, mas para quem vai transmitir a informação. Não importa se ela está incompleta, míope ou errada mesmo. Se está preenchendo o espaço, está bom.

Ainda sou da opinião que o jornalista tem de praticar o jornalismo. Tem de apurar, entrevistar, fuçar, cativar fonte, conservá-la e até mesmo dar furo. Pensamento antiquado, eu sei. Mas, fui formado assim. Quando precisava de informação, ia atrás, não esperava um assessor de imprensa, por melhor que ele fosse, me entregar isso de mão beijada. Podem me chamar de chato, não estou nem aí.

A cada dia, parece que este meu pensamento está cada vez mais ultrapassado. É uma pena porque a apuração, assim, vai morrendo. O bom jornalismo também.

Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Conversa de Semáforo

Tarde de sol em Santos e eu andando com cara de paisagem pela avenida da praia, em direção à balsa. Cabeça meio longe, me preparando para enfrentar o aborrecimento da fila para embarcar, aquela coisa toda. E tomando cuidado para não ser pego por nenhum radar, porque ninguém é de ferro. Um semáforo fecha e eu paro o carro.

Do meu lado, um outro carro pára e o senhor que está dirigindo abaixa o vidro do passageiro e chama a minha atenção.

- Você é daqui? - ele pergunta.

- Não sou, desculpe - é a minha resposta e ele faz cara de desapontado.

- Qual o lugar que o senhor está procurando? - insisto, como que sem jeito pelo desapontamento alheio e como se eu conhecesse muito Santos.

- A rua República do Equador. Moro aqui há 60 anos e ainda não aprendi o caminho.

- Ih, desculpe, eu não conheço. Mas, de qualquer forma, boa sorte...

Afinal de contas, se ele que mora há 60 anos na cidade não sabe, quem sou eu para saber. Se ele ainda estivesse procurando o caminho para chegar à balsa...

Terça-feira, 12 de Maio de 2009

Leilão

A Prefeitura de Areia Branca resolveu leiloar alguns animais de grande porte que tinham sido apreendidos e os donos não os haviam reclamado. Eram bois, vacas, cavalos, éguas e alguns jegues – que estavam soltos pela cidade ou até pelas praias do município e foram recolhidos ao Depósito Municipal. Lá, ficavam até o leilão.

O procedimento era simples. Seu Jarbas, o responsável pelas compras e pelos leilões da Prefeitura, soltava um edital informando as características do produto. O interessado ia até o prédio da municipalidade e retirava o documento. Um dia para visita do lote era marcado e na manhã seguinte, na sala do leiloeiro, era a vez do leilão em si. Preço mínimo apresentado, quem desse mais levava. Seu Jarbas tinha até separado um martelo especial para a ocasião e tinha ensaiado o bordão que aprendera no canal da antena parabólica:

– Vendido para o cavalheiro!!!

Geralmente, os participantes desses leilões eram pequenos chacareiros da zona rural. Alguém interessado em um animal para ajudar na roça, no transporte ou, no caso das vacas, para garantir o leite nosso de cada dia. Nada da economia complexa dos mercados futuros.

Desta vez, eram três vacas, cinco cavalos e uma mula que iriam a leilão. Quatro participantes dividiram os animais. Só o João Chiclete, que mora lá para as bandas do Rio Abaixo, ficou com um único cavalo – o seu “carro novo”, como havia dito para o sobrinho antes de sair do sítio.
Lotes comprados, cada um pegou sua guia e foi ao banco fazer o pagamento. No dia seguinte, era só ir até o depósito geral do município e retirar o bem recém-adquirido.

Só que no dia seguinte, o João Chiclete voltou à Prefeitura e quase amanheceu em frente à sala do seu Jarbas. A figura magra, de pele curtida pelo sol e calça jeans surrada estava sem jeito quando se sentou na cadeira em frente ao funcionário de grandes orelhas e pouco cabelo, o que restava estava todo branco.

– Seu Jarbas, aconteceu uma coisa. O senhor tem de me ajudar – proclamou o João, enquanto girava o chapéu de uma mão para a outra.

– O que foi, meu caro? – devolveu o funcionário graduado, entre papéis de compras de copos plásticos e envelopes de carta.

– É que... Bem, é que eu comprei o cavalo errado. O que eu queria era branco, todo forte. Este que eu dei o lance é marrom e está todo fraquinho. Vai morrer logo logo.

– Certo. E o que o senhor quer que eu faça?

– Que troque o meu cavalo, ou melhor, o cavalo que eu comprei.

– Ah, isso eu não posso fazer. Afinal, o senhor comprou este. E a papelada já está toda assinada – definiu o Jarbas. E para ele, nada era mais definitivo na vida que o princípio da papelada assinada.

– Mas, seu Jarbas, o que eu faço agora?

– Ora, vai até o depósito e leva o cavalo de lá.

Decepcionado, o João Chiclete foi ao depósito, retirou o cavalo de lá e levou o animal até o sítio. Realmente, ele estava judiado, mas ainda havia uma esperança. Afinal de contas, o tempo e o trabalho também tinham judiado do João e nem por isso ele iria se menosprezar à toa. Talvez por isso, simpatizou com o cavalo.

Chegando em casa, a Joana olhou o marido puxando o novo “membro da família” com desconfiança. Ele nem se abalou e devolveu:

– Olha, não é um carro zero quilômetro. É de segunda mão. Mas, com uma boa recauchutada, vai ficar quase novo. Não vai precisar nem de revisão no fim do ano.

E não precisou mesmo.

No ano seguinte, o João Chiclete ganhou o prêmio de melhor cavaleiro da Festa da Padroeira. Quem entregou a medalha foi o festeiro, o seu Jarbas.